Profissionais Burnout

Burnout entre médicos e enfermeiros: relatos de cinco capitais

Por Dr. Rafael Mendes · 12 de junho de 2026

Composição abstrata sobre exaustão profissional
Entrevistas realizadas entre março e maio de 2026, com garantia de anonimato quando solicitado.
A gente cuida de todo mundo e esquece que também precisa de cuidado. Quando percebe, já está irritado com paciente, com colega, consigo mesmo. — Enfermeira, 34 anos, hospital público em Porto Alegre

Introdução

Depois dos anos mais agudos da pandemia, muitos hospitais voltaram a uma rotina que parece normal por fora — mas que, por dentro, continua exigindo mais do que equipes conseguem dar. Burnout entre profissionais de saúde deixou de ser tema de congresso para ser conversa de corredor. Ainda assim, pedir ajuda psicológica ou psiquiátrica continua carregado de tabu.

Esta reportagem reúne relatos de 23 profissionais — médicos, enfermeiros e técnicos — entrevistados em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre e Brasília. Não há amostra estatística aqui; há um retrato qualitativo do que se repete quando se abre espaço para falar sem medo de exposição.

Como ouvimos

As entrevistas duraram entre 40 e 90 minutos, presenciais ou por videoconferência. Metade dos entrevistados pediu anonimato, citando receio de prejuízo em processos seletivos ou clima tenso nas equipes. Quando citamos nomes, é porque a pessoa autorizou expressamente.

Plantões e culpa

Plantões duplos, falta de repouso entre turnos e sensação de nunca dar conta apareceram em praticamente todos os relatos. Um residente de clínica médica em São Paulo descreveu "viver em modo de alerta permanente". Uma enfermeira de UTI em Salvador disse que chora no carro antes de entrar em casa para não preocupar os filhos.

A culpa aparece de formas distintas: culpa por erro percebido, por não estar disponível para a família, por sentir irritação com pacientes. Dois entrevistados relataram sintomas compatíveis com quadros depressivos leves a moderados — mas apenas um havia procurado atendimento formal.

Medico que vai no psiquiatra ainda ouve piada no elevador. Isso precisa mudar antes de qualquer programa de bem-estar corporativo. — Dr. André Lisboa, anestesiologista em Brasília

Pedir ajuda

Entre os que buscaram apoio, psicoterapia privada foi o caminho mais comum — seguida de grupos de apoio entre colegas, muitos informais. Serviços de saúde mental oferecidos por hospitais existem, mas são subutilizados: medo de registro em prontuário funcional, horários incompatíveis com plantões e desconfiança sobre sigilo foram motivos citados.

Psiquiatras ouvidos como fontes — não como entrevistados da série — reforçam que transtornos de ansiedade e depressão são frequentes entre profissionais de saúde, e que tratamento precoce reduz afastamentos longos e erros associados à exaustão.

O que dizem as instituições

Procuradas, duas secretarias estaduais de saúde responderam que "programas de valorização e bem-estar estão em expansão", sem detalhar indicadores de adesão. Um hospital privado no Rio informou ter ampliado contratos com plataformas de telepsicologia para colaboradores — benefício elogiado por quem usa, mas descrito como insuficiente por quem não encontra tempo para sessões semanais.

O Horizonte Mental publicará, nas próximas semanas, texto complementar sobre políticas de saúde mental para trabalhadores da saúde no setor público federal. Sugestões de pauta podem ser enviadas para [email protected].

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Depoimentos com consentimento; nomes alterados quando pedido. Dados oficiais consultados em maio-junho de 2026. Texto informativo — não prescreve conduta individual.

Profissionais de diferentes regiões concordam que o acesso é desigual. Interior depende de telerregulação e de profissional visitante mensal.

Universidades formam especialistas, mas absorção pelo mercado público é lenta. Concurso travado significa paciente na fila.